Conserta, Conserta, Estraga? A grandeza do grupo CCE hoje

Tomo como ponto de partida desse trabalho os desejos e necessidades humanas. Uma necessidade é um estado de privação de alguma satisfação básica (alimento, vestuário, moradia). Desejos são vontades para satisfações específicas das necessidades profundas.

Desejo é tudo o que o ser humano deseja para satisfazer a sua necessidade. Esses desejos são moldados pela cultura, família e personalidade adquiridos durante toda a vida. Todos possuem muitos desejos, mas seus recursos são limitados. É aí que entramos com a demanda. A demanda é o meu desejo que é limitado pelo meu poder de compra. Quando as pessoas possuem um desejo e tem poder de compra, temos então uma demanda (desejos de produtos específicos apoiados na habilidade e vontade de comprá-los).

Irei diagnosticar uma demanda negativa acometida por uma empresa brasileira, a Comércio de Componentes Eletrônicos (CCE). A CCE foi fundada em 1964 com o objetivo de importar e comercializar componentes eletrônicos. Em 1971 a empresa iniciou a fabricação de equipamentos completos. Durante as décadas de 1970 e parte de 1980, ela foi, juntamente com a Polyvox, uma das maiores concorrentes da Gradiente no mercado de equipamentos de áudio modulares. Hoje a empresa tem 40 anos de existência, possui um centro administrativo em São Paulo e um pólo industrial na bela cidade de Manaus. Ainda oferece 5.800 posições de trabalho em nossa nação. Mas essa CCE de hoje, teve que ralar muito para se livrar de algumas famas adquiridas em outrora.

Tudo começou na década de 80, quando acontece em nosso país um boom no segmento eletrônico. Apesar dos aparelhos televisores terem chegado na década de 50, grande parte das famílias consumidores adquiriram o equipamento no fim da década de 70. Não porque não tinham condições, mas aqui viram a importância de ter um aparelho televisor em casa. Ter uma televisão tornou-se tão necessário quanto uma geladeira ou um chuveiro. Grande parte dessa explosão de vendas quando ia-se entrar na década de 80, é devido ao novo segmento de televisores à cores de 1972. Iniciou-se uma divisão social entre os que podiam trocar seu aparelho antigo pelo colorido e os que tinham que manter a sua em preto-e-branco.

A CCE, que vendia na época apenas TVs, rádios, pequenos sons e pequenos eletroeletrônicos, começa a investir no público que possuía menor condições para adquirir um equipamento poderoso, e começa a se lançar no mercado produzindo eletros com uma menor qualidade – em consequente menor preço. Assim muitos dos primeiros televisores das famílias brasileiras eram da marca – pergunte aos seus avós. Talvez eles ainda tenham em seus lares um televisor a cores da Comércio de Computadores Eletrônicos.

Para alcançar esse público e se destacar diante da concorrente Gradiente, a marca não passara confiança aos seus consumidores. Seus produtos eram de baixa qualidade, e feitos com componentes de baixa qualidade.

Para agravar ainda mais a situação, a CCE representava aqui no Brasil a marca japonesa AIWA. Essa fora a primeira empresa no Japão a fabricar toca-fitas e outros produtos. Se por lá a marca tem um tom de tradição, por aqui sua inserção foi um fiasco. Quando a revolução digital começou, no fim da década de 1990, a empresa estava mal equipada para fabricar produtos que os consumidores desejavam, levando-a assim quase à falência. A empresa foi salva pela antiga rival – Sony, em 2002 e deixou de ser uma empresa independente, passando a ser uma divisão da Sony. Antes da Sony englobar a AIWA, a CCE a representava por essas bandas de cá. Não preciso nem comentar que toda a defasagem da AIWA estava camuflada pela CCE, que levou toda a moral negativa para si.

Diante desse contexto, grande parte dos aparelhos da CCE se estragaram, de uma hora para outra. O grande azar da marca foi ter tido uma massa de aparelhos sendo inutilizados no mesmo espaço de tempo. Os galpões de garantia e assistência técnica estavam lotados, as lojas não queriam mais comercializar a marca, e os clientes começaram a dar espontaneamente feedbacks negativos para a marca. Quem nunca ouviu: CCE? Conserta, Corserta, Estraga! CCE? Começou Comprando Errado. CCE? Comprei a Coisa Errada! CCE? Caixa de Componentes Estragados. Pois é! Todos esses jargões são oriundos dessa época e desse contexto histórico.

Outras empresas como Sony, Philco, Phillips, LG e a própria Gradiente estavam conquistando um território que antes era da CCE. Não demorou muito para surgir acusações infundadas das concorrentes, que num mercado cada vez mais agressivo, começaram a denegrir a imagem da empresa dizendo que seus equipamentos “fediam”. Muitos então ficaram com essa concepção: “Não compre CCE, CCE fede”. Quando na verdade todo essa avalanche contra a marca era apenas por causa de uma falida estratégia que ainda hoje algumas empresas insistem em investir – baixo preço/baixa qualidade – e uma parceria infundada que nem deveria ter começado. Me lembro de um texto que Ana Paula Valadão compartilhou certa vez: “Peso não é pecado, não são necessariamente coisas erradas, mas são coisas que nos embaraçam. É aquela sociedade feita com uma pessoa que tem princípios, pensamentos e interesses diferentes do seu. Vai caminhando bem até um certo ponto, e logo se torna um peso. Ao invés de trazer alegria, a empresa é motivo de estresse, desânimo, contenda, e amizades vão por água abaixo por causa do convívio ríspido em uma parceria que, na verdade, nunca deveria ter começado.” Tomar posto de franquia, ou assumir em seu país lago que está dando certo lá fora é tão arriscado quanto perigoso.

Qual estratégia a CCE utilizou para se livrar dessa demanda negativa? Uma delas foi produzir o que era novidade, exclusivo. Em meados da década de 1980 a CCE ingressou no mercado de videocassetes, deixando apenas de produzir a linha de televisores. A CCE foi a única empresa no Brasil a vender um videocassete “player”, ou seja, um aparelho que tinha apenas a capacidade de reproduzir fitas pré-gravadas. Apesar de ter um custo menor que o de um aparelho convencional, o produto não obteve sucesso. No setor de videogames, a empresa fabricou na década de 1980 um console similar e compatível ao Atari 2600 e, posteriormente um aparelho Top Game. Depois o TurboGame, ambos bastante populares entre os jogadores da época, compatível com o Nintendo 8 bits que tinha dois slots podendo aceitar cartuchos em ambos os padrões: japonês e americano.

Além de investir em novas tecnologias para forçar consumidores a adquirirem CCE – pois no mercado de televisores ela perdeu bastante território para suas concorrentes, devido à precariedade das matérias-primas dos aparelhos para conseguirem um baixo preço – uma das grandes jogadas da CCE foi estar presente no mercado de microcomputadores. Uma das, pois a grande jogada foi ter findado a parceria com a AIWA!

Findando a parceria com a AIWA, a empresa firmou parceria com ninguém mais, ninguém menos que a Apple Inc. A CCE vendia no Brasil um equipamento no padrão Apple II (o exato) e um microcomputador de baixo custo, o MC-1000, para concorrer com o CP 400 da concorrente Prológica.

Em 1998 a CCE ingressou no mercado de eletrodomésticos fabricando e comercializando freezers e geladeiras. Não deu sucesso, pois outras gigantes já dominavam o mercado, como a Brastemp. Por isso que atualmente (setembro/2011) a linha branca da empresa restringe-se a fornos de microondas.

A partir de 2006 a CCE voltou a comercializar computadores pessoais de baixo custo equipados com Windows ou Linux através de uma nova divisão, a "CCE Informática". A empresa, todavia, não mais comercializa vídeo-games. Vejam a matéria no site da Revista Info na ocasião:



CCE anuncia que vai produzir computadores

Segunda-feira, 15 de maio de 2006 - 19h00

SÃO PAULO – A fabricante de produtos eletroeletrônicos CCE anuncia, na terça-feira (16), que passará a disputar o mercado de computadores pessoais. A empresa não deu detalhes sobre a linha CCE Info, que apresentará ao mercado.

A companhia é atualmente uma das maiores fabricantes de televisores e produtos de áudio no país. Ao todo, a empresa que tem unidades fabris em São Paulo e Manaus, produz 3 milhões de equipamentos de várias linhas por ano.

O anúncio está previsto para acontecer às 19 horas desta terça-feira, na cidade de São Paulo.

Felipe Zmoginski, do Plantão INFO



Com essa nova inserção no mercado, trazendo aos brasileiros novas tecnologia, a CCE consegue se livrar dos inedsejáveis jargões. Mas custou muito! Hoje a CCE é um grupo de empresas formado por CEMAZ, Placibras, PCE, Digibras, Digiboard, P&D São Paulo, Compaz e Componel. Na concepção de criação da empresa, continuam com essa estrtatégia de trazer aos brasileiros novas tecnologias; seu objetivo é oferecer aos brasileiros acesso às facilidades do futuro e proporcionar uma real democratização da tecnologia. Para que isso se torne possível, montou uma completa infra-estrutura que inclui um centro administrativo em São Paulo e um pólo industrial na bela cidade de Manaus.

Além de ser o maior pólo da região, o Grupo CCE também é o maior empregador do setor de eletroeletrônicos e informática, com mais de 5.800 posições de trabalho. E foi graças aos colaboradores que a empresa chegou à marca de 60 milhões de produtos fabricados, entre TVs, microondas, aparelhos de som e computadores. Criados e desenvolvidos pelo Grupo CCE.

Segundo a empresa, o objetivo do Grupo CCE sempre foi atender da melhor maneira as necessidades de seus clientes e do mercado. Por isso, em 2006, após firmar parcerias com os maiores players do mercado, como INTEL, MICROSOFT, SONY e MSI – e apagar de vez a infeliz parceria com a AIWA – a CCE Info iniciou a produção de computadores, notebooks, monitores e TVs de LCD que são verdadeiros sinônimos de inovação, como falamos.

Hoje a Comércio de Componentes Eletrônicos oferece aos consumidores acesso ao melhor da tecnologia – desta vez com a qualidade que eles merecem. O resultado desses esforços para se livrar da demanda negativa já é visível, afinal a CCE Info já é líder em vendas no segmento de informática no varejo (a CCE Info e uma ramificção recente do grupo). Em 2 anos mais de 1 milhão de computadores produzidos, o que a tornou uma das empresas líderes em informática no varejo. E agora até já se pode achar na internet nos fóruns que possuem categoria das empresas de eletroeletrônicos no Brasil:

“Antigamente até que a qualidade CCE podia deixar a desejar. Mas hoje acredito que os produtos eletroeletrônicos de marcas com renome são todos com a mesma qualidade. A grande vantagem de produtos CCE acho que se dá mais no preço.É esperar para ver...” Ca Camba, de Oliveira/MG

“Cara, há uns seis meses compramos numa promoção do Extra uma TV 29 polegadas Cyber Vision por 600 reais... depois descobri que a bicha é CCE... cara é uma beleza, até agora tá filé. Um técnico me disse que a tecnologia que a CCE utiliza hoje é Mitsubishi... Quanto a esses PCs de mercado não valem nada; se comprar um filé numa loja de informática por um pouco a mais... É só ficar ligado para os caras não passarem a perna. De resto são ótimos.” Cabral, de Brasília/DF

“No meu tempo de guri tive um ‘3 em 1’ da CCE. Cara, era muito bom, muito potente, bastante recursos. Ganhei da minha avó na época e quando vi pensei: ‘Que bosta, qualquer um menos CCE!’. Depois vi que era só história...” Leonardo, de Novo Hamburgo/RS

“Bom... eu tenho um tio muito enjoado. Coisa boa para ele é sinômino de coisa cara... o bicho comprou uma TV LG tela plana para meu avô... tá uma bosta a TV. Tem que desligar da tomada, porque ela tem vida própria... recentemente ele pagou R$14000 numa dessas de plasma de 42 polegadas da Phillips, nem vou citar a dor de cabeça que ela tá dando, senão o texto irá ter um metro...” Carlos, de Brasília/DF

“Eu trabalho num hotel. Aqui todas as TVs são CCE e estão funcionando há três anos. Até hoje nenhum controle remoto ou TV estragou. São mais de 40 TVs espalhadas pelo hotel; teve até uma onde caiu um bade de água em cima. A abrimos e deixamos secar por uns três meses... Funciona aqui na recepção perfeitamente.” Rafael Backes, de São Paulo/SP

Sugiro à empresa investir em um novo jargão de marketing: CCE? Caminho Correto e Exato! Os consumidores dessa geração estão satisfeitos com a marca, e toda a demanda negativa foi extinguida.



Bibliografia

CCE Info - Conecte-se com a Comércio de Componentes Eletrônicos  (disponível em <http://www.cceinfo.com.br/empresa>. Acesso em setembro/2011).

Info Online - CCE anuncia que vai produzir computadores (disponível em <http://info.abril.com.br/aberto/infonews/052006/15052006-15.shl>. Acesso em setembro/2011).

Tecnomundo - 5 motivos pelos quais as televisões estão virando computadores (disponível em <http://www.tecmundo.com.br/televisao/13093-5-motivos-pelos-quais-as-televisoes-estao-virando-computadores.htm>. Acesso em setembro/2011)

Tecnomundo - História da Televisão (disponível em <http://www.tecmundo.com.br/2397-historia-da-televisao.htm>. Acesso em setembro/2011)



Breno Custódio Martins,
para a disciplina de Estudos de Mercado I do sexto período do curso de Design Gráfico da Universidade do Estado de Minas Gerais. Professores Isabelle Maluf e Márcio Lambert.
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